quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Poema "A Esfinge", uma luz sobre a cidade chamada Leme

Dia 28 de outubro, o Circuito Sesc de Artes passou por Leme, onde desenvolveu diversas manifestações artístisticas e oficinas (teatro, circo, música, dança e video). Por onde o Circuito passa, Um escritor, poeta acompanha a caravana, escrevendo sobre cidade, seja por meio de uma crônica, poema ou registro com fotos.
 
Fui lembrado quando o Sesc passou por Leme e tive uma pequena homenagem, com um poema, em reconhecimento ao Projeto de Pesquisa e Resgate Cultural do Fotógrafo de Jardim (século 19), que desenvolvo em Leme.
 
No poema, que remete muito do que acontece em Leme, o poeta faz um texto crítico e bem assimilado sobre a cidade. Pelo pouco tempo que teve para se abastecer de informações sobre Leme, absorveu muito bem o ritmo de Leme e registrou poéticamente.
 
Sobre o Circuito Sesc de Artes e poemas de outras cidades e textos escritos por outros poetas e escritores
 
Confira a dedicatória que o poeta e filósofo Paulo Nunes fez aqui com o nome de "A Esfinge"
 
Paulo Nunes escreveu também sobre Leme, Avenida da Saudade, Sermão em Leme, Ulisses e a Fábrica
 
A seguir e na integra, o poema sobre Leme "Esfinge"
 

A ESFINGE

(Ao jornalista e fotógrafo Ricardo Missão)

Leme é uma fronteira agrícola e cidades assim – e eu conheço uma delas muito bem – são indecisas: andam descalças e de avião.
Gostam de cavalos e bois, mas entopem suas ruas de automóveis.
Gostam de pescar e brincar na água, mas matam os seus rios.
Voltam todos os dias do campo para o barulho das ruas e avenidas.
Misturam pedestres, bicicletas e automóveis (o que não dá muito certo).
Dão, um pouco contrariadas, a um raizeiro a chance de sobreviver.
E é possível, numa moderna avenida, sentir o mau cheiro de um galinheiro.


Leme é uma cidade nova, que se enriquece e se expande.
Cidades assim – e a única que eu conheço muito bem é assim – não gostam de cultuar sua memória: destroem-na, como Leme fez com quase todo o seu patrimônio histórico e até com a Matriz de São Manoel.
Depois, constroem outros edifícios, outras casas, uma nova Matriz, nem sempre à sua imagem e semelhança, mas se esforçam para andar com estes sapatos novos. E andam.
Cidades assim já não têm matriz, mas um hangar onde Deus aterrissa.


Leme há muito tempo descobriu a felicidade e a propaganda.
E cidades assim têm fábricas de fogos de artifícios, pois comemoram muito (e a única que eu conheço muito bem é assim).
Embora originais e férteis, ricas em suas idiossincrasias, cultuam a monocultura e uma só praga, que um dia, talvez, devastará tudo, e apenas um significado para a palavra Cultura.
Seus habitantes são pessoas simples, diretas, caladas, plenas do silêncio de um vasto horizonte hoje inteiramente colhido e plantado, mas a palavra “caipira” ficou curta, já não as vestem.
Cidades assim estão prenhes de mãos calosas, duras, operando as mais sutis invenções e aparelhos.
E se são planas, de fácil expansão horizontal, esquecem os quintais e querem edifícios.
Repetem seus nomes, e quanto mais os repetem, maiores pensam que ficam. E assim de fato é.
E constroem novos cemitérios e os põem longe do centro.
E constroem bairros para os trabalhadores, cemitérios também distantes.


Leme, como aquela outra cidade, nasceu de um alforje cheio de sementes.
Cidades assim derrubam suas matas e plantam na praça, ritualmente, um jequitibá.
Lutaram muito com as árvores, por isso não gostam de tê-las soltas pelas calçadas, preferem prendê-las nalgum parque.
E por motivos iguais também gostam de zoológicos.
Cidades assim têm seu entorno todo arado – ou é tudo canteiro de obras?
Suas indústrias germinam, sua agricultura fabrica.
E não são pequenas nem grandes: são a própria classe média.
Têm um grande comércio – tudo nelas é comércio – e muitos bancos, comandando um exército de carros-fortes.
E vão de caminhonete aos bailes e casamentos.


Cidades como Leme gostam de se ver e inventam seus próprios espelhos.
Constroem pequenos monumentos a grandes acontecimentos, o que, como tudo que há, quer dizer alguma coisa.
Têm suas praças cheias de velhos, tão invisíveis quanto seus monumentos.
Misturam à argamassa de sua estrutura um grande ruído de crianças na escola.
E se nasceram de estradas importantes, nunca estão na origem destas estradas.
Cidades assim, à beira da estrada, estão a meio caminho de tudo.
E aprendem de gente adulta que passa algumas palavras novas: desenvolvimento, progresso. E as repetem, repetem…
Mas são cidades que ainda sabem de onde vem o que comem, e que se sentam à mesa e conversam.
Têm pouco mais de cem anos e se instalam no milênio.
E, não querendo mais lembrar, ponderam o futuro e sua possível roça.


Não se sabe bem porque, mas muitas pessoas que nascem em cidades como Leme um dia se mudam para longe, de onde as recordam, e de vez em quando tentam voltar, e voltam sempre, em pensamento.
Pois cidades assim também crescem nos seus habitantes mais distantes.
E, mistério maior ainda, às vezes produzem, além de grãos, farta lavoura de suicidas.
E se foram construídas sobre o campo e continuam a ser, infinitamente, edificadas sobre si mesmas, sob seu asfalto há capim e cercas.
Cidades assim são áridas e se querem espelhadas, porém mantêm em sua praça a velha Fonte.
E quanto mais áridas, mais parecem submersas.
E em suas ruas ainda passa, invisível, driblando o trânsito, um solitário boi.
Cidades assim, enfim – e se eu conheço uma muito bem, nunca a entendi – são verdadeiras esfinges: cheias de rodas, assentam-se sobre suas velhas patas, preparam as asas e o impulso – e nos fitam, imóveis.


(Paulo Nunes é graduado em filosofia pela USP, onde exerce, também a profissão de livreiro. Como letrista, com diversos parceiros, coleciona mais de uma centena de canções.)

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